Espírito Santo lança resultado de pesquisa inédita no Brasil sobre a realidade das mulheres
Resultado é a união de rodas de conversa realizadas entre 2023 e 2025 e dados estatísticos para demonstrar a realidade e as singularidades das mulheres no Espírito Santo.
No próximo dia 26 de março, o Governo do Estado, por meio da Secretaria das Mulheres (SESM), apresenta o Atlas das Mulheres do Espírito Santo. Muito além de um compilado de indicadores estatísticos, a obra nasce do resultado de uma pesquisa com metodologia própria, que desencadeou o maior projeto de coleta de dados, registro, identificação e organização de informações.
A ideia é trazer a voz das mulheres e todas as suas interseccionalidades para que as políticas públicas possam ser pensadas não mais de forma universalista, mas com olhar específico e particular do que é ser mulher em cada segmento a partir da realidade apresentada pelas próprias mulheres.
O projeto inédito se destaca por uma metodologia sensível e híbrida. De um lado, o rigor dos números do Censo 2022 (IBGE) e dos Anuários de Segurança Pública; de outro, a riqueza da "escuta qualificada". Foram meses de incursões em campo, onde rodas de conversa deram voz a 19 segmentos distintos divididos em 31 tópicos — de mulheres em situação de rua, trabalhadoras domésticas, mães atípicas, da ciência e da política a comunidades tradicionais. O resultado é um livro com mais de 600 páginas.
A voz por trás do dado: Emoção e Memória
Um dos pontos mais marcantes do livro é o cuidado em não reduzir essas trajetórias a porcentagens. Ao longo dos capítulos, o leitor encontrará frases que traduzem as emoções e o sentir das mulheres durante as rodas de conversa, além de imagens que captam o cotidiano (pesquisadores entraram nas casas, nas propriedades rurais, nos empreendimentos, na vida real para recortes reais da vida dessas mulheres). São desabafos, esperanças e dores que humanizam os números, complementados por nuvens de palavras que revelam as subjetividades de cada grupo. É um esforço para levantar o debate sobre as "mulheridades", trazendo para o centro da conversa as múltiplas peças que formam esse mosaico social.
Para viabilizar esse retrato, a equipe heterogênea de pesquisadoras e pesquisadores percorreu mais de 16 mil quilômetros por diversas cidades, somando 155 ações diretas entre entrevistas e reuniões. Foram ouvidas mais de 1,4 mil mulheres nos anos de 2024 a 2025.
Segundo a secretária de Estado das Mulheres, Jacqueline Moraes, o Atlas das Mulheres foi pensado durante a criação da secretaria, em 2023, quando o planejamento estratégico foi desenhado. “A ideia é que esse formato de escuta das mulheres seja aplicado de tempos em tempos e se renove sempre que necessário para atender às mulheres em suas interseccionalidades. Um dos pontos de destaque desta obra são as nuvens de palavras. Elas mexeram muito comigo, porque ali você vê claramente a diferença de sentimentos em cada segmento e como as mulheres são múltiplas e devem ser cuidadas nessas suas peculiaridades quando nós que estamos à frente das políticas públicas vamos tomar decisões”, destacou.
O Atlas se propõe ainda a ser ferramenta na promoção de uma educação cidadã e contribuir para o empoderamento e a eliminação das diversas formas de violência contra meninas e mulheres. Por fim, servir de base para novos e mais aprofundados estudos e pesquisas.
Para a coordenadora do projeto, Jaqueline Sanz, o Atlas funciona como um "mosaico de vozes" que tira da invisibilidade grupos historicamente negligenciados. Cada uma das seções do livro encerra com ações prioritárias, que servem como guia para gestores públicos e sociedade civil em áreas como saúde, educação e segurança.
“As rodas de conversa se tornaram fóruns de reflexão, locais de falas potentes e palco para narrativas de experiências e vivências marcantes e profundas. Em grande medida, as mulheres viam as rodas como uma ponte entre elas e o poder público, sobretudo em relação às demandas relacionadas a políticas públicas. Por essa razão, resolvemos usar esses pontos destacados por elas nas rodas no formato de ações prioritárias para ajudar os gestores públicos nesta missão”, explicou.
O seminário de lançamento vai contar com uma apresentação das principais informações do Atlas por Jaqueline Sanz, seguida de uma palestra de Fayda Belo sobre interseccionalidade e combate à violência, finalizando com reflexões apresentadas pela secretária de Estado das Mulheres, Jacqueline Moraes, e da ministra das Mulheres, Márcia Lopes.
O Retrato da Autonomia: Protagonismo no Lar, Desafio no Bolso
O Atlas reafirma a mudança estrutural na sociedade capixaba dentro do universo de 1,4 mil mulheres participantes da pesquisa: 48,14% das mulheres disseram serem elas as principais provedoras dos lares.
Esse panorama converge com as informações do Censo de 2022, cujo resultado de mulheres responsáveis pelos domicílios particulares chega a 45,5%.
Três segmentos apresentaram a maior proporção de mulheres sendo as principais provedoras: Mulheres Trabalhadoras Domésticas (76%), Mulheres Idosas (75%) e Mulheres Periféricas (64,4%).
Esse protagonismo, no entanto, é acompanhado por uma sobrecarga histórica. A pesquisa destaca que a autonomia econômica feminina ainda enfrenta barreiras severas, especialmente quando cruzada com o fator racial. Mulheres pardas e pretas compõem a base da pirâmide social, enfrentando as maiores dificuldades de inserção qualificada no mercado de trabalho e as menores remunerações.
Na introdução e no panorama geral, o Atlas reforça que a desigualdade de gênero no Estado é um fenômeno "interseccional". Isso significa que para entender a economia feminina, é preciso olhar para a jornada dupla (ou tripla) de cuidado. O documento aponta que o "trabalho invisível" é traduzido no cuidado com a casa e com dependentes, mas reflete o cansaço e desesperança em algumas mulheres de obter uma vida mais digna.
Mulheres que vivem em territórios rurais têm menor escolaridade
Diferentemente de outros segmentos urbanos que participaram das rodas de conversa, os de mulheres que vivem tipicamente no meio rural apresentam uma concentração significativa no ensino fundamental incompleto ou ensino fundamental completo.
Um dos resultados, o que chamou atenção e que pede estudos mais aprofundados é que a partir das participantes das rodas constatou-se o maior predomínio de mulheres que não concluíram o ensino fundamental está entre as mulheres pomeranas (38,5%); mulheres assentadas e acampadas (37,5%); mulheres pescadoras e marisqueiras (35,1%); agricultoras familiares e camponesas (33,9%) e mulheres quilombolas e ciganas (33,3%). No segmento de mulheres indígenas, uma participante declarou não ter frequentado a escola.
Chama atenção a necessidade de se aprofundar estudos para compreender os processos sociais que fazem com que as mulheres que estão majoritariamente no meio rural sejam as que têm menor nível de escolaridade. Mas os relatos nas rodas de conversa destacam, por exemplo, mulheres do campo que relataram abandono precoce da escola para auxiliar no trabalho agrícola familiar ou devido à dificuldade de deslocamento até as escolas, já nas comunidades tradicionais o preconceito também é indicado como um dos motivos que contribui para a evasão escolar.
Há ainda os relatos de mulheres que buscaram a alfabetização ou a conclusão de etapas de ensino já na idade adulta, motivadas pelo desejo de mais autonomia nas propriedades e participação em associações e cooperativas.
Impacto da maternidade nas mulheres da ciência
De acordo com a pesquisa, a ciência no Espírito Santo tem rosto feminino na base, mas o topo ainda é masculino. O Atlas revela que a participação das mulheres diminui drasticamente conforme a carreira progride: elas são apenas 27% dos pesquisadores com mais de 21 anos de atuação.
As rodas de conversa com as cientistas mostraram que nas práticas acadêmicas não se pensa sobre as especificidades do ser mulher como a demanda da maternidade, por exemplo. Muitas participantes descreveram os enfrentamentos para suplantar os desafios entre a maternidade e a progressão na carreira, esbarrando em estruturas institucionais que pouco consideram essa realidade já que é um segmento pensado pelos homens.
O documento sugere que é necessário políticas de incentivo que considerem estrutura em eventos científicos com suporte para mães, criação de espaços institucionais de escuta e acolhimento, criação de chamadas e editais exclusivos, aprimoramento da forma de avaliação de produtividade considerando a realidade das mulheres.
Comunidades tradicionais: liderança e ancestralidade
O Atlas dedica capítulos às mulheres de comunidades tradicionais de ciganas, quilombolas, indígenas e pomeranas. Todas elas mostraram nas rodas o atravessamento étnico-racial que demonstram o forte preconceito que elas sofrem no cotidiano e o pedido urgente de enfrentamento do Estado.
Em todos os segmentos que compõem as comunidades tradicionais houve relatos de mulheres que testemunham e convivem com o sofrimento do racismo e da discriminação étnico-racial. Mas o preconceito não é entre pessoas, os relatos denunciam que na procura por serviços públicos elas também sofrem este tipo de violência.
Muitas advertem, com isso, que é preciso preparar os serviços essenciais como saúde e educação, por exemplo, para atender às especificidades e também se tornarem ferramentas para trabalharem de forma conjunta contra o preconceito e a discriminação.
Para as ciganas, ser reconhecida como alguém que cuida e acolhe é reconhecido como fonte de afeto e realização, demonstrado no destaque de que 80% das mulheres ciganas têm filhos e 73% não trabalham fora, usando a maior parte do tempo para cuidar da família e dos afazeres domésticos.
Já nas comunidades quilombolas, o resultado mostra a resistência da cultura ancestral e de liderança das mulheres demonstrado nas narrativas preponderantes de pertencimento, orgulho, luta, dor, fé e reinvenção cotidiana.
Entre as indígenas, a centralidade das mulheres na organização da vida comunitária e na sustentação econômica é evidenciada pelo fato de que 42% delas se identificam como as principais provedoras da família.
As pomeranas, entre as mulheres entrevistadas, demonstraram grande orgulho por quem são e a responsabilidade assumida de guardiãs culturais. Contudo, algumas mulheres relataram que algumas vezes já sentiram vergonha de falar em pomerano fora do ambiente familiar, por medo do preconceito. Houve quem escondesse a identidade para evitar discriminação, e esse apagamento acabou sendo reproduzido, ainda que de forma inconsciente.
Invisibilidade e o perfil racial nas calçadas
As rodas de conversa do Atlas revelaram que a face feminina da rua no Espírito Santo é marcada pela possibilidade de perda da função materna, transformando a pobreza em uma exclusão civil completa.
Enquanto em outros segmentos a preocupação é o sustento e cuidado dos filhos, para as mulheres em situação de rua a dor central relatada é a separação compulsória. Muitas relatam que vivem o medo de seus filhos serem retirados pelo Estado logo após o parto ou devido à condição de moradia, o que gera um ciclo de sofrimento mental e desamparo.
Diferente das mulheres que sofrem violência majoritariamente no ambiente doméstico, para este grupo a violência é territorial. A rua é descrita como um espaço de vigilância constante, onde o corpo da mulher está exposto a violências físicas e sexuais tanto de homens na mesma situação quanto de civis
A falta de acesso a itens básicos de higiene também foi relatada. A pobreza menstrual foi um tema recorrente e de extrema importância nas falas qualitativas.
Entre as mulheres em situação de rua pesquisadas, 76% se autodeclaram pardas; já outras 16% se identificaram como pretas, o que confirma que a população em situação de rua tem cor: 92% delas são negras.
Serviço
Lançamento do Atlas das Mulheres do Espírito Santo
Data: 26/03 (quinta-feira), a partir de 9 horas
Local: Hotel Comfort Suites (Av. Saturnino de Brito, 1327 - Praia do Canto - Vitória)
Confira a Programação
9 horas - Credenciamento
9h20 - Apresentação Cultural
10h10 - Atlas das Mulheres do Espírito Santo: um mosaico de dados, vozes e vivências das múltiplas formas de ser mulher no Espírito Santo - Jaqueline Sanz, Coordenadora do Projeto
10h40 - A interseccionalidade como eixo central do enfrentamento à violência contra a mulher - Fayda Belo, advogada especialista em crimes de gênero e membro do Fórum Permanente de Enfrentamento à Violência contra a Mulher do CNJ
11h10 - Atlas das Mulheres: um retrato inédito das mulheres do Espírito Santo – ciência, escuta e transformação - Jacqueline Moraes, Secretária de Estado das Mulheres
11h30 - Atlas das Mulheres do Espírito Santo: exemplo metodológico para pensar a pluralidade das mulheres em seus territórios - Márcia Lopes, Ministra de Estado das Mulheres
11h45 - Encerramento
Informações à imprensa:
Assessoria de Comunicação da SESM
Sânnie Rocha
E-mail: atlas.mulheres@mulheres.es.gov.br
WhatsApp: (27) 99895-2965